Informativo On-line

Expectativas do Mercado em Meio ao Aprofundamento da Crise Sanitária

Por Carlos Gilbert Conte Filho

O Brasil registra, mês após mês, o aprofundamento da pandemia: são sucessivos recordes de contaminação e óbitos que fazem com que o País tenha contabilizado mais de 340 mil vidas perdidas. Em meio a crise sanitária, a economia padece. O resultado é o aumento da incerteza e a consequente queda do otimismo quanto a fatores chaves que assegurariam a retomada da economia com o vigor que o mercado ainda espera.

Em meio a diminuição da oferta de bens e serviços em função do isolamento social e impulsionada pela demanda – o auxílio emergencial contribui para a manutenção da demanda – repercute na elevação dos preços de uma gama de itens. O Boletim Focus do Banco Central (Bacen) mostra que a mediana das projeções dos economistas para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPC-A) se elevou substancialmente ao longo dos últimos meses.

Atualmente, estima-se que o IPC-A feche o ano em 4,86% (para 2022, estima-se que o índice feche o próximo ano em 3,61% (gráfico 1)).Lembrando que a meta da inflação perseguida pelo Bacen é de 3,75% em 2021 (e de 3,5% em 2022), com intervalo de tolerância de 1,5% para cima ou para baixo, observa-se que, a se confirmar a expectativa de inflação para este ano, esta estaria quase batendo no teto da margem de tolerância estipulada pela autoridade monetária.

.


Gráfico 1: Mediana da expectativa de mercado para o IPCA em 2021 e 2022. - Fonte: Banco Central do Brasil (2021).

 

E a fim de conter a escalada de preços, os juros estão sendo revisados para cima. O ponto-médio das expectativas do mercado para a taxa básica de juros (Selic) manteve-se em 5,00% para o fim de 2021 e 6,00% no de 2022 (gráfico 2). A se confirmar, seria uma alta de 1,25% ante ao que está vigente atualmente (2,75%). Sendo assim, para uma economia que espera se recuperar do tombo registrado em 2020, um aumento expressivo da taxa básica de juros inibiria os investimentos, índice que também tem sofrido durante a pandemia. Vale destacar que, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a economia brasileira encolheu 4,1% em 2020. Este foi o pior resultado em um ano na série histórica que começou em 1996. Até então, a maior queda registrada tinha sido em 2015 (-3,5%).

 


Gráfico 2: Mediana da expectativa do mercado (fim do período) para a taxa Selic. - Fonte: Banco Central do Brasil (2021).

 

O nível de investimentos é o motor de qualquer economia. E mesmo com a melhora da formação bruta de capital fixo ao longo do último trimestre de 2020, o todo do ano mostra uma queda dos investimentos da ordem de -4,98% em relação ao registrado em 2019.No primeiro trimestre de 2021, em função do aprofundamento da crise sanitária, os investimentos devem voltar a apresentar resultado negativo. E para uma economia que visa recuperar o tombo registrado em 2020 (e o provável desempenho negativo do início de 2021), os níveis de investimento tem de ser incentivados, o que vai na contramão do aumento das taxas de juros.

 


Gráfico 3: Formação Bruta de Capital Fixo no Brasil (%). - Fonte: IBGE (2021).

 

O resultado do aumento da inflação e a consequente expectativa substancial do aumento dos juros repercute no desempenho da economia. A mediana das projeções do mercado para o crescimento da economia brasileira em 2021 vem sendo, sucessivamente, revisada para baixo ao longo dos últimos boletins de expectativas do mercado. Na última semana, passou dos 3,18% para 3,17%. Ao longo desses três meses de 2021, a expectativa de crescimento caiu mais de 0,25%, o que é substancial (e deve continuar sendo revisada para baixo). Para 2022, a expectativa de expansão do PIB também teve ajuste para baixo: passou dos 2,5% para 2,33%.

 


Gráfico 4: Mediana da expectativa do mercado (fim do período) para o PIB. - Fonte: Banco Central do Brasil (2021).

 

O conturbado ambiente sanitário (e político do País – com a troca recorrente de ministros e a desconfiança do mercado em relação a saúde das contas públicas) faz com que aumente a incerteza, fazendo com que os agentes econômicos procurem salvaguardar os recursos em ativos mais sólidos. Portanto, é inevitável que o dólar se valorize ante ao Real. A mediana das estimativas para o câmbio mostra que o dólar deve fechar o ano em R$ 5,35 (ante aos R$ 5,33 apurados previamente). Para 2022, a projeção recuou: passou de R$ 5,26 para R$ 5,25.

 


Gráfico 5: Mediana da expectativa do mercado (fim do período) para o câmbio. - Fonte: Banco Central do Brasil (2021).

 

Em suma, observa-se um conturbado ambiente sanitário que repercute no ambiente econômico. É como um cobertor curto: para conter os níveis de preços o governo tem de elevar os juros (o que tende a incentivar a população a manter os recursos no sistema financeiro diminuindo, assim, a demanda). A elevação dos juros, por sua vez, repercute na queda dos investimentos que, inevitavelmente, repercute no desempenho da economia. Em paralelo, há a ampliação da incerteza que faz com que os agentes econômicos procurem ativos que assegurem a manutenção do capital. Assim, há a fuga de riqueza do Real para o dólar, o que pressiona os preços, já que diversos insumos – como o petróleo – são cotados em moeda estrangeira.

Consequentemente, os preços voltam a ficar pressionados o que instiga a novos aumentos da taxa de juros. Portanto, estamos em um ciclo vicioso que deve repercutir no desempenho da economia. Considero extremamente otimista acreditar que ainda neste ano teremos um crescimento acima dos 3%. Para que a economia tenha um desempenho tão favorável, é imperativo que a vacinação seja difundida para uma ampla parcela da população (o que não vem acontecendo), o que levaria a retomada da economia ao longo dos últimos dois trimestres. Ainda assim, é demasiado otimismo acreditar que nos dois últimos trimestres teremos um desempenho tão expressivo que contrabalance o primeiro (e possivelmente o segundo) trimestre de 2021. Logo, este ano, ao que tudo indica, seguirá sendo de dificuldades no ambiente econômico.