Selic mantida em 10,5%.

Por Carlos Gilbert Conte Filho

            O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central decidiu, na reunião de junho, manter a Selic – a taxa básica de juros da economia brasileira – em 10,5% ao ano. Essa decisão freia os cortes que vinham acontecendo desde junho de 2023 (figura 1). Diante disso, o que se indaga é se essa foi uma decisão acertada.

            Antes de analisar as variáveis pró e contra mais um corte na taxa Selic, é importante destacar alguns pontos, a saber:

  1. A Selic é chamada de taxa básica porque serve de referência para outros juros do mercado, como aqueles cobrados em empréstimos e financiamentos. Assim, essas demais taxas seguem o comportamento da Selic.
  2. A Selic funciona como um balizador para controlar a inflação. Em um cenário de inflação elevada, os juros são majorados no intuito de frear o consumo. Do contrário, ou seja, com inflação controlada, os juros podem cair, o que fomenta a economia.
  3. A Selic elevada faz com que o custo do capital seja mais caro. Assim, tanto o consumo, como os investimentos e a geração de emprego são freados, o que prejudica o crescimento econômico.
  4. A definição da taxa básica de juros é feita usando como base a inflação atual mais a expectativa de inflação futura (se dá sinais de que vai subir ou cair). Além disso, existem outros fatores que podem influenciar a decisão sobre a taxa, como o aumento da incerteza econômica e da conjuntura internacional. Conflitos internacionais também podem influenciar os indicadores de inflação doméstica.
  5. Partindo do pressuposto de que a inflação está controlada, uma taxa básica de juros elevada é ruim para a economia sob qualquer ponto de vista político. Em suma, é ruim para o país como um todo.

E é a luz desses pontos que se entende a divergência entre o atual governo e o Banco Central, mais precisamente entre o presidente Lula e o presidente da instituição, Roberto Campos Neto. Lula tem criticado fortemente o comportamento do Copom, já que aos olhos deste, não há motivos para a Selic se manter no patamar elevado em que está.

Já faz algum tempo que a inflação no Brasil convergiu para o centro da meta estipulada pela autoridade monetária que é de 3% com margem de tolerância de 1,5% para mais ou para menos (padrão este que vigora deste ano até 2026). Observando a trajetória do IPCA – índice oficial utilizado pelo governo para medir a inflação no Brasil – o que fica é que a inflação está muito próxima do centro da meta e, principalmente, distante do limite máximo, mesmo diante da aceleração observada do índice em maio (alta de 0,46%) (figura 2).

No comunicado divulgado após a reunião, o Copom destacou que quase nada mudou em relação ao comunicado da reunião anterior ocorrida em maio. O balanço dos riscos continua igual. Há chance de alta da inflação com a persistência da inflação global e, domesticamente, há a pressão da inflação de serviços em uma economia cujo ritmo pode ultrapassar seu potencial. Há chances de baixa, todas relacionadas ao cenário externo – como a de uma desaceleração mais forte do que a prevista da economia global.

Sendo assim, para justificar a manutenção dos juros no patamar atual, o Copom citou alguns fatores. Destacou que existe elevada incerteza sobre a flexibilização da política monetária nos Estados Unidos e sobre a velocidade de queda da inflação em diversos países. Internamente, o que preocupa são os indicadores de atividade econômica, especialmente do mercado de trabalho, que apresentam dinamismo maior do que o esperado (atualmente são mais de 100 milhões de postos de trabalho). Portanto, as dúvidas sobre o desenvolvimento futuro dessas situações demandam maior cautela na condução da política monetária.

O comunicado também destaca que o Copom seguirá monitorando com atenção os impactos da política fiscal na política monetária e nos ativos financeiros. O comitê reafirma que uma política fiscal crível e comprometida com a sustentabilidade da dívida contribui para a ancoragem das expectativas de inflação e para a redução dos prêmios de risco dos ativos financeiros, consequentemente impactando a política monetária. Ou seja, jogou um pouco da decisão como uma reação ao aspecto fiscal do país. E é bom lembrar que o governo tem se empenhado em tentar reduzir o déficit fiscal.

Fato é que a decisão de junho do Copom marcou o fim do ciclo de cortes na taxa básica de juros e isso acaba impactando em diversos setores da economia. Logo, empréstimos, financiamentos e aplicações financeiras também acabam sendo impactados.

Destaca-se, também, que o papel do Banco Central é preservar o poder de compra da moeda, ou seja, combater a inflação, sendo competência do governo federal a atividade econômica do país. Então, mesmo que as decisões influenciem trazendo efeitos contracionistas para a economia, essas são necessárias para controlar a inflação e atingir a meta estipulada. E isso também deve ser levado em consideração por um governo de esquerda. Em um cenário de processo inflacionário mais acentuado quem acaba pagando a conta são as pessoas de renda mais baixa, já que essas dificilmente conseguem se proteger da escalada dos preços. Por outro lado, o que se observa é uma inflação controlada, o que da margem para a redução da taxa de juros para patamares inferiores a dois dígitos. Contudo, deve-se destacar que a reunião de junho foi marcada pela unanimidade dos votos do colegiado (foram 9 votos favoráveis a manutenção da Selic em 10,5%), o que da menos margem a discussão de se essa poderia ou não ter havido mais um corte na Selic.

Olhando para os números reportados pelo Boletim Focus, a mediana das projeções dos economistas do mercado para a inflação brasileira subiu pela sétima semana consecutiva, de 3,96% para 3,98%. Para 2025, a mediana das expectativas para o IPCA também subiu, passou de 3,80% para 3,85%. E é com base nesse cenário que o mercado já não projeta novos cortes da Selic para esse ano (mesmo com a inflação convergindo para o centro da meta): a mediana da expectativa para a Selic se encontra em 10,5% ao fim desse ano.

Caminhando para o lado político, a reunião de junho estava cercada de mais expectativa do que o costume. No encontro de maio, o comitê havia resolvido cortar a taxa em 0,25% em uma decisão que dividiu os membros. De um lado, defendendo uma redução maior, de 0,5%, estavam os diretores indicados pelo governo Lula. Do outro, que acabou prevalecendo, membros mais antigos. Essa discordância alimentou a preocupação de que, quando acabar o mandato do atual presidente do BC, em dezembro, um novo chefe indicado pelo atual governo seja mais agressivo nos cortes.

Em suma, o que fica é que não devem ocorrer novos cortes na taxa básica de juros durante esse ano. De fato, isso é um entrave a economia. Contudo, as coisas têm caminhado bem, com o Boletim Focus revisando para cima a expectativa de crescimento do produto brasileiro a cada nova semana. Mas poderia ser ainda melhor se o Copom desse uma ajudinha.