Inflação passa a atingir mais fortemente a classe média
2025-08-01 11:35:29Por Carlos Gilbert Conte Filho
Após um período em que os efeitos da inflação se concentravam principalmente nas famílias de mais baixa renda, o cenário recente mostra uma reconfiguração no perfil dos mais afetados: a classe média passou a sentir com maior intensidade os impactos do aumento de preços (gráfico 1). O movimento, observado especialmente a partir de maio de 2025, reflete uma mudança na composição dos choques inflacionários e nas dinâmicas de preços de bens e serviços mais consumidos por essa parcela da população.
É importante frisar como são delimitadas as classes de renda no Brasil. São essas:
• Renda muito baixa: menor que R$ 2.202,02
• Renda baixa: entre R$ 2.202,02 e R$ 3.303,03
• Renda média-baixa: entre R$ 3.303,03 e R$ 5.505,06
• Renda média: entre R$ 5.505,06 e R$ 11.010,11
• Renda média-alta: entre R$ 11.010,11 e R$ 22.020,22
• Renda alta: maior que R$ 22.020,22
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), combinados com estimativas de inflação por faixas de renda desenvolvidas por centros de pesquisa como o Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), mostram que a inflação acumulada em 12 meses até abril era mais elevada para os 20% mais pobres. Contudo, em maio e junho, a inflação dos segmentos de renda média passou a crescer em ritmo mais acelerado, especialmente na faixa entre os 40% e 80% da distribuição de renda.
Até o primeiro quadrimestre do ano, o comportamento dos preços estava fortemente ancorado em pressões nos alimentos e nos combustíveis – itens com peso relativamente maior na cesta de consumo dos mais pobres. Houve choques pontuais, como a quebra de safra em algumas culturas alimentares e a volatilidade dos preços internacionais do petróleo, que afetaram diretamente os produtos básicos do cotidiano das famílias de baixa renda.
Entretanto, a partir de maio, essa dinâmica começou a mudar. Com a desaceleração da inflação de alimentos – em parte favorecida por boas colheitas e reequilíbrio das cadeias logísticas – e a estabilidade relativa do câmbio, a inflação passou a ser puxada por segmentos mais associados ao consumo da classe média, como educação, saúde suplementar, transportes particulares, lazer, cultura e serviços diversos.
A classe média, cuja renda familiar se situa entre 5 e 20 salários-mínimos, consome uma cesta de bens e serviços mais diversificada e menos dependente dos produtos essenciais. À medida que os preços de serviços educacionais, planos de saúde, mensalidades escolares, cursos livres, viagens, restaurantes e serviços pessoais aceleram, o orçamento dessas famílias começa a ser comprimido. Segundo dados do IPCA/IBGE, os seguintes grupos mostraram variações significativas ao longo dos últimos 12 meses:
• Educação: alta de 6,3%; o que se deve aos reajustes concentrados no início do segundo semestre letivo, com aumentos em mensalidades escolares e cursos técnicos.
• Saúde: alta de 9,1%. Houve aumento das mensalidades dos planos de saúde após autorização da ANS, além de serviços particulares como consultas e exames.
• Transportes: alta de 11,4%; o que se deve a valorização de serviços de transporte por aplicativo e manutenção de veículos.
Um dos fatores que explica a mudança do comportamento dos preços passando a recair mais sobre a classe média está na inércia inflacionária dos serviços. Com a melhora gradual do mercado de trabalho e a recuperação da renda real, há mais demanda por serviços, o que permite às empresas repassarem custos acumulados nos últimos meses. Além disso, os serviços tendem a ser mais sensíveis à inflação passada (efeitos defasados de reajustes de salários e aluguéis, por exemplo), o que prolonga sua escalada mesmo em contextos de desaceleração geral do índice.
Há também o fator da recomposição de margens em setores fortemente afetados pela pandemia e suas consequências. Segmentos como turismo, aviação, hotelaria e recreação, que operaram com preços comprimidos até 2022-2023, voltaram a ajustar valores para patamares sustentáveis, o que impacta diretamente os gastos típicos da classe média.
Essa mudança de foco da inflação traz implicações importantes para a política monetária, para o consumo das famílias e para a percepção de bem-estar social. Para o Banco Central, o fato de os serviços estarem impulsionando a inflação acende um sinal de alerta, pois esse é um segmento que responde mais lentamente às medidas de política monetária, o que pode justificar uma postura ainda cautelosa na condução da taxa básica de juros (Selic), mesmo diante de um IPCA total que não sinalize aceleração generalizada.
Do ponto de vista do consumo, a classe média começa a revisar seus padrões. Com o encarecimento de serviços não essenciais, há tendência de substituição de bens e adiamento de decisões de consumo, o que pode impactar a recuperação do setor terciário nos próximos trimestres. Além disso, o endividamento dessa faixa da população, que já era elevado, pode se tornar um freio adicional ao crescimento do consumo. De fato, o aumento da inadimplência, em especial no crédito pessoal e no rotativo do cartão, tem restringido o acesso ao crédito e elevado o comprometimento de renda da classe média, acentuando o impacto da inflação sobre o consumo corrente.
Por fim, a percepção da inflação pelo público de renda média tende a ser mais intensa quando os serviços – vistos como expressão de mobilidade social – ficam mais caros. O encarecimento de planos de saúde, por exemplo, é frequentemente percebido como perda de bem-estar e segurança. Da mesma forma, gastos com educação, lazer e transporte particular são associados à qualidade de vida urbana, e seu aumento afeta diretamente a sensação de estabilidade econômica.
Em suma, o novo perfil da inflação brasileira em 2025 indica uma transição de uma inflação concentrada em bens essenciais para uma inflação de serviços e custos médios. Isso exige atenção redobrada das autoridades monetárias e uma análise mais fina dos efeitos distributivos da política econômica. Após um longo período relativamente protegida das pressões inflacionárias mais intensas, a classe média retorna ao foco das atenções, atuando não apenas como grupo impactado, mas também como força motriz de tensões inflacionárias e potenciais reações políticas.
Nesse novo cenário, a comunicação do Banco Central e a calibragem dos instrumentos de política monetária precisam levar em conta o efeito assimétrico da inflação entre faixas de renda, evitando tanto o excesso de aperto quanto a leniência em um momento de recomposição estrutural de preços. Nos próximos trimestres, a trajetória da inflação dependerá da persistência da inflação de serviços, da disciplina fiscal e do comportamento da demanda interna, particularmente entre os grupos de renda média que passaram a ser o novo termômetro da política monetária.

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