As Ameaças de Donald Trump aos Países do BRICS
2025-08-04 07:33:35Por Carlos Gilbert Conte Filho
Desde sua primeira campanha presidencial em 2016, Donald Trump consolidou uma postura agressiva e nacionalista na política externa dos Estados Unidos. O slogan America First sintetizou não apenas uma ideologia, mas também uma série de ações voltadas à defesa intransigente dos interesses norte-americanos, incluindo a imposição de tarifas, o uso estratégico de sanções e o desprezo por normas multilaterais. Agora, em seu segundo mandato, Trump intensificou seus ataques ao BRICS (bloco formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, recentemente ampliado com a entrada de países como Irã, Arábia Saudita e Egito). Suas pressões – por vezes veladas, por vezes explícitas – não se restringem apenas à retórica populista: expressam uma estratégia de contenção geopolítica e econômica frente à ascensão de outras economias. Vejamos.
Desde sua origem, o BRICS tem buscado construir alternativas à ordem internacional hegemonizada pelo Ocidente. Iniciativas como o Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), os acordos de cooperação tecnológica e energética, e mais recentemente a proposta de desdolarização parcial do comércio, têm sido interpretadas por Trump como ameaças diretas à supremacia do dólar e à liderança dos EUA. Em declarações públicas, o presidente norte-americano chegou a classificar o bloco como "uma coalizão de regimes autoritários" que estaria minando a liberdade econômica global.
Para além da retórica, o BRICS tem se movimentado para criar uma infraestrutura financeira própria. Uma das prioridades é a construção de um sistema alternativo ao SWIFT, rede ocidental de pagamentos que pode ser usada como ferramenta de sanção. Simultaneamente, os países do bloco têm firmado acordos bilaterais para usar moedas locais (como o yuan e a rupia) nas trocas comerciais, reduzindo a dependência do dólar. Esses movimentos são percebidos por Washington como ameaças à arquitetura financeira global consolidada desde Bretton Woods após a Segunda Guerra Mundial.
Entre os membros do BRICS, China e Rússia ocupam posições centrais na mira da Casa Branca. Contra Pequim, Trump já impôs tarifas pesadas, acusou o país de espionagem tecnológica e o responsabilizou pela pandemia de COVID-19. Em 2024, a retórica anti-China recrudesceu com propostas de bloqueio a empresas chinesas e restrições a investimentos em setores estratégicos. No caso da Rússia, embora a relação com Putin tenha oscilado entre aproximação e confronto, Trump vem endurecendo o tom desde a intensificação da guerra na Ucrânia. Seu governo defende novas sanções contra bancos russos e o congelamento de ativos de oligarcas ligados ao Kremlin.
A Índia, por sua vez, adota uma postura ambígua: participa ativamente do BRICS, mas mantém alianças estratégicas com os EUA, sobretudo em defesa e tecnologia. Essa posição dúbia limita a capacidade de atuação coordenada do bloco em temas mais sensíveis e ajuda a explicar a relutância indiana em confrontar diretamente os interesses norte-americanos.
No cenário latino-americano, o Brasil ocupa papel singular. Durante o governo Bolsonaro, os laços com os EUA foram fortalecidos, com Trump exaltando a cooperação estratégica entre os dois países. Com a eleição de Lula e o retorno a uma política externa multilateral – marcada pela defesa da multipolaridade e pela ampliação do BRICS – o tom de Washington mudou drasticamente. O ápice da tensão veio em 9 de julho – após reunião dos países dos BRICS – quando Trump enviou carta oficial ao governo brasileiro declarando apoio incondicional a Bolsonaro e anunciando sanções econômicas inéditas. A medida foi vista como retaliação política e interferência direta na soberania, sobretudo em relação aos pilares da democracia e das instituições brasileiras.
As consequências da postura de Trump para a economia nacional são graves. O teor da carta enviada ao governo brasileiro – além de defender publicamente o ex-presidente – também anunciou uma tarifa de 50% sobre os produtos brasileiros de qualquer natureza, com início previsto já para agosto. A medida impacta fortemente setores como siderurgia, indústria automotiva, aviação, o setor primário, bens de capital e química. A perda de competitividade no mercado norte-americano deverá provocar queda nas exportações, paralisações produtivas e aumento do desemprego. Estima-se que os efeitos se espalhem ao longo das cadeias regionais, afetando também logística, fornecedores e serviços relacionados.
Trump também tem prometido revisar acordos comerciais e retaliar países que adotem moedas alternativas ao dólar, colocando o BRICS no centro dessa disputa. A resposta do bloco pode incluir o fortalecimento de redes financeiras paralelas, com adesão de outros países (como Irã, Turquia e parceiros africanos), aprofundando a fragmentação do sistema monetário internacional.
Paradoxalmente, o endurecimento da política externa dos EUA pode servir como catalisador para a coesão interna do BRICS. O avanço do bloco, agora ampliado (BRICS+), e sua atuação em temas como saúde, energia, infraestrutura e segurança alimentar, sinaliza um esforço real de construção de nova governança global. A crescente hostilidade de Washington às instituições multilaterais tradicionais abre espaço para que esse projeto ganhe legitimidade entre países do Sul Global.
Em síntese, a postura de Donald Trump em seu segundo mandato revela mais do que uma estratégia de contenção: expressa um projeto autoritário de reimposição unilateral da hegemonia norte-americana. A retaliação econômica ao Brasil, sob a forma de pesadas tarifas, é apenas um dos sinais de um padrão mais amplo de coerção. Ao ignorar normas internacionais, hostilizar coalizões emergentes e instrumentalizar o comércio como arma geopolítica, os EUA de Trump colocam em risco os pilares da ordem global. Cabe ao BRICS+ e a outras articulações do Sul Global responderem com firmeza e criatividade, construindo alternativas que garantam soberania, justiça e pluralismo nas relações internacionais.

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