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A deflação dos preços abre espaço para cortes nos juros?

O Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) – a inflação oficial do País – teve deflação de 0,08% em junho ante a maio, ficando 0,31% abaixo dos 0,23% registrado no mês anterior. Para o mês de junho, essa foi a menor variação desde 2017. Em 12 meses o IPCA acumula alta de 3,16% (gráfico 1) o que coloca o índice dentro da meta estabelecida pelo Comitê de Política Monetário (Copom) (3,25% podendo oscilar entre 1,75% e 4,75%). Vale lembrar que há um ano, o IPCA em 12 meses acumulava alta de 11,89%. Ante ao cenário que se apresenta, já é possível projetar cortes dos juros num futuro breve? Vejamos.

Contribuíram para o resultado de junho, a queda de quatro dos nove grupos que compõe o IPCA (gráfico 2). O indicador foi puxado especialmente pelos grupos de Alimentação e bebidas (-0,66%); e Transportes (-0,41%). Esses são os dois grupos com maior peso dentro da cesta de consumo das famílias e, sozinhos, representam 42% do IPCA. Por outro lado, houve inflação nos grupos habitação (0,69%); e cuidados pessoais (0,36%), grupos esses igualmente relevantes dentre os que compõe o índice. Um ponto a se ressaltar é o índice de difusão – este mostra o percentual de itens que apresentaram aumento de preços – que recuou de 56% em maio para 50% em junho, o que mostra que a inflação está menos “espalhada” dentre os itens que compõe o IPCA.

O principal recuo dentro do grupo de Alimentação e bebidas veio da Alimentação no domicílio (queda de 1,07% no mês). O principal item deflacionário foi o óleo de soja (-8,96%) que caiu na esteira da redução dos preços de grãos e outras commodities alimentícias. Nos últimos meses, os preços dos grãos caíram (dentre esses o preço da soja) significativamente em função da valorização cambial e do clima que contribuiu para uma maior produção. E essa queda dos preços impactou diretamente o preço do óleo de soja e, indiretamente nos preços das carnes e do leite. A soja é insumo utilizado na produção da ração animal e, a um preço mais baixo, contribui para reduzir os custos de produção de diversos itens. Com isso, rapidamente houve efeito em outros itens alimentícios, como o leite longa vida (-2,68%) e as carnes (-2,10%).

No grupo transportes, o destaque positivo veio com a redução dos preços dos combustíveis e o preço dos automóveis (tanto novos quanto usados). A gasolina, item que tem o maior peso individual no grupo, teve recuo de 1,14%; o óleo diesel caiu 6,68%; o etanol, 5,11% e o gás veicular teve baixa de 2,77%. Ainda no grupo Transportes houve recuo nos preços dos automóveis novos (-2,76%) e dos automóveis usados (-0,93%). O subitem automóvel novo foi o de maior impacto individual no mês, repercutindo, sozinho na queda de 0,09% no grupo Transportes. Por outro lado, as passagens aéreas seguem oscilando entre altas e quedas dos preços.  

Ainda em relação ao recuo dos preços dos automóveis, caba destacar que o resultado ocorreu em função do programa de descontos para carros populares do governo federal, que concedeu descontos de R$ 2 mil a R$ 8 mil para carros de pequeno porte com valor total de até R$ 120 mil. Sendo assim, a partir dos próximos meses, o preço dos automóveis deve voltar ao patamar normal, o que tenderá a pressionar os preços desses itens e do grupo Transportes.

                Dito isso e frente ao controle do processo inflacionário verificado nos últimos meses – afinal, entre junho de 2022 e junho de 2023 houve redução de 8,73% na inflação acumulada em 12 meses – a questão que surge é: quando e em qual magnitude os juros serão reduzidos?

Observando as expectativas do mercado a partir do Boletim Focus do Banco Central divulgado a cada início de semana, os números apontam para a oitava queda consecutiva na mediana das projeções de preços (atualmente, a expetativa do mercado para o IPCA ao fim de 2023 está em 4,95%). Sendo assim, no caso das expectativas se concretizem, a inflação encerrará 2023 muito próxima da meta estabelecida pelo Copom. Nesse contexto, o que esperar das taxas de juros? Há diversos fatores favoráveis e que podem ser pontuados para responder a essa questão.

Inicialmente, é relevante ressaltar que a desaceleração da inflação no último ano se deu por conta, em parte, da desoneração dos preços de combustíveis. Entretanto, a volta da tributação que ocorre em julho deve ser compensada pela redução do valor do petróleo no exterior (o que ainda deve respingar no preço final dos combustíveis ao longo dos próximos meses). Isso posto, não há nenhum outro fator, interno ou externo, no radar que poderia levar os preços a subirem até o fim do ano, o que contribui para manter a inflação perto da meta estipulada pelo Copom.

O arcabouço fiscal é mais um fator que traz tranquilidade para o mercado e ajuda a ancorar as expectativas da inflação, já que indicam um maior controle dos gastos da União. O câmbio também surge como fator relevante: o dólar passa por um período de desvalorização no Brasil (abaixo dos R$ 5/US$), e isso também contribui para manter os preços controlados dentro do País (já que mesmo os bens produzidos internamente, em diversos casos, utilizam insumos importados).

Em relação aos juros, pontualmente, o objetivo dos bancos centrais ao elevar as taxas básicas é conter o avanço da inflação. Não esqueçamos que juros mais altos são um remédio amargo que tornam os processos de tomada de crédito e financiamento mais caros, tanto para a população quanto para as empresas. Esse maior custo do capital leva a uma redução no consumo e, com menos demanda, os preços começam a cair. Há consenso entre economistas de que o aperto monetário decorrente da elevação dos juros já cumpriu seu papel. Salienta-se, ainda, que o uso da política monetária como ferramenta para controle de preços atinge a economia real com uma defasagem entre 6 e 12 meses. Sendo assim, os resultados recentes da inflação no Brasil remetem às decisões anteriores sobre a taxa de juros. Logo, os registros de uma inflação menor em 2023 – abaixo das expectativas iniciais do mercado – são o resultado da estratégia de prolongamento do ciclo de aperto monetário adotado pelo BC ao longo dos últimos meses. Portanto, diante da projeção de uma inflação controlada, não faz sentido manter a Selic em um patamar elevado.

Diante ao aqui elencado, a expectativa do mercado é que já na próxima reunião do Copom – a ser realizada em agosto – a taxa Selic seja reduzida em 0,5% trazendo-a para o patamar dos 13,25% ao ano. Além dessa primeira queda projetada para agosto, o mercado espera, nas próximas três reuniões que ocorrerão ainda esse ano, novas quedas dos juros. O mercado projeta a taxa Selic, ao fim de 2023, em 12%; ou seja, 1,75% de redução nos juros básicos ao longo dos próximos cinco meses.

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