Artigo

Deflação em julho

Por Carlos Gilbert Conte Filho

            O Índice Nacional de Preços ao Consumidos Amplo (IPCA) – índice oficial utilizado pelo governo para medir a inflação – apresentou queda de -0,68% em julho segundo dados divulgados pelo IBGE no dia 9 de agosto. A queda registrada em julho é a primeira desde maio de 2020, quando houve deflação de -0,38%. Naquele momento, contudo, o País vivia um contexto de restrições das atividades econômicas com o início da pandemia, fator que reprimia a demanda e, consequentemente, os preços. Agora, em 2022, os fatores que resultam na queda do índice são outros.

O resultado do IPCA de julho veio levemente abaixo da previsão estimada pelo mercado (-0,65%) e muito inferior ao índice de junho desse ano (alta de 0,67%). No acumulado no ano, contudo, a inflação soma 4,77% e, nos últimos doze meses, a taxa é de 10,07% (gráfico 1), ou seja, bem acima do teto da meta estabelecida pela autoridade monetária para esse ano (3,5% com variação de 1,5%).

Gráfico 1 – IPCA no mês de referência, acumulado no ano e acumulado em 12 meses.

Fonte: IBGE (2022).

Segundo o IBGE, a deflação registrada se deve, principalmente, à redução do preço dos combustíveis – em especial a gasolina (-15,48%) e etanol (-11,38%) – e da energia elétrica (-5,78%). Para outros bens, entretanto, a queda de preços não se verifica. Os preços do grupo “alimentos e bebidas” subiram 1,30% em julho (ante ao aumento de 0,8% em junho). Este foi um dos setor que sofreu ampla variação positiva no mês (assim como o “transporte público”) e impediu um recuo ainda mais significativo do IPCA. Os destaques ficaram para os reajustes das aves e ovos (1,4%), dos farináceos (1,8%), dos panificados (2,0%) e, sobretudo, do leite (25,5%).

A fim de compreendermos o impacto que a deflação acarreta (ou não) nas famílias brasileiras, é necessária uma breve explanação de como o índice é construído. Para compor o IPCA, o IBGE apura as variações de preços em 16 grandes cidades do País. Quais itens são analisados? Há uma cesta de produtos e serviços pré-estabelecidos que são importantes itens de consumo para a população. Esses itens são ponderados a partir da composição de uma família modelo. Ou seja, cada bem ou serviço tem um peso na composição final do IPCA. Compõe essa cesta de bens e serviços itens de alimentação, habitação, artigos de residência, vestuário, transportes, saúde, despesas pessoais, educação e comunicação.

Diante da metodologia para a composição do IPCA, observa-se que, como as diferentes faixas de renda da população possuem perfis de compras diferentes, a inflação acaba impactando de formas distintas sobre cada faixa de renda. Por exemplo: famílias com renda elevada acabam demandando mais itens como serviços (viagens e educação) e combustíveis; enquanto famílias menos abastadas dedicam grande parte renda a outros itens (majoritariamente, alimentação, aluguel e transporte público). Na prática, portanto, a inflação não é a mesma para todos. E é justamente esse fenômeno que suscita discussões sobre se os preços estão, de fato, caindo.

O que se observa é que a deflação chegou, em grande parte, para as famílias mais abastadas, que possuem carro próprio cujo item “combustível pra veículos” tem um grande peso no orçamento (sozinho, esse item registrou queda de -14,15% em julho). Para as famílias de renda mais baixa, por outro lado – onde a alimentação tem maior peso no orçamento – o mesmo não ocorre. Se por um lado os combustíveis e energia caíram -4,26 em julho (acumulando deflação de -3,31%), a inflação do grupo alimentos e bebidas se aproximou dos 15% (mais precisamente, 14,72%) ao longo dos últimos doze meses (tabela 1). As altas mais expressivas, ao longo do último ano, ocorreram nos itens: farinhas e massas (20,0%); tubérculos (36,5%); hortaliças (27,2%), frutas (35,4%), leite e derivados (41,2%), aves e ovos (18,1%), panificados (18,2%) e óleos e gorduras (23,9%).  

Tabela 1 – IPCA de itens selecionados

ItemIPCA em julho de 2022Acumulado em 12 meses
 Índice Geral-0.68%10.07%
Alimentação e bebidas1.30%14.72%
 Alimentação no domicílio1.47%17.50%
 Alimentação fora do domicílio0.82%7.61%
 Habitação-1.05%4.43%
 Aluguel e taxas0.86%8.79%
 Combustíveis e energia-4.26%-3.31%
 Combustíveis (domésticos)-0.31%21.82%
Combustíveis (veículos)-14.15%7.25%
 Energia elétrica residencial-5.78%-10.77%
 Vestuário0.58%16.67%
Transportes-4.51%12.99%
Transporte público1.94%18.01%
Serviços de saúde1.01%2.35%
Serviços médicos e dentários0.93%7.28%
Plano de saúde1.13%0.30%
Cuidados pessoais-0.23%8.49%
Comunicação0.07%3.64%

Fonte: IBGE (2022).

Sendo assim, como o recuo da inflação foi provocada principalmente pela queda do preço da gasolina, a maior parte dos brasileiros ainda sente alta dos preços dos alimentos, vestuário e habitação (sobretudo dos aluguéis).

Destaca-se, ainda, que os preços não estão caindo naturalmente, mas forçados através de medidas políticas. Portanto, tão logo essas medidas venham a cair, a inflação deve voltar a subir (essa é a expectativa do mercado para 2023 – ver gráfico 2). Quais medidas são essas? O recuo do IPCA observado em julho se deve a uma mudança no Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) de combustíveis e energia elétrica. A Lei Complementar 194 – apresentada pelo governo e aprovada no Congresso Nacional em junho – limitou a cobrança do ICMS desses produtos visando reduzir esses preços às vésperas das eleições presidenciais. Além disso, também contribuiu para a queda dos preços dos combustíveis a redução do preço médio anunciada em julho pela Petrobras. Já em relação à conta de luz, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) aprovou revisões tarifárias extraordinárias em dez distribuidoras, reduzindo as tarifas a partir de 13 de julho.

Gráfico 2 – Expectativa do mercado para o IPCA em 2022 e 2023.

Fonte: Banco Central do Brasil (2022).

O resultado desse esforço político se percebe nas expectativas para o IPCA ao fim de 2022 (mas não ao fim de 2023 cujas projeções têm sido corrigidas para cima ao longo das últimas semanas). Segundo o Boletim Focus divulgado no dia 15 de agosto, a expectativa é que o IPCA encerre 2022 em 7,02%, bem acima do teto da meta estabelecida pela autoridade monetária (limite de 5%), mas, ainda assim, menor do que vinha sendo especulado anteriormente (gráfico 2). Por sua vez, a expectativa para o IPCA ao fim de 2023 é de 5,38%, ou seja, ainda acima do teto da meta estabelecida para aquele ano (3,25% com variação de 1,5% para mais ou para menos). Sendo assim, presume-se que, ainda em 2023, a taxa básica de juros (Selic) continue em um patamar elevado. O mercado espera uma Selic em 13,75% ao fim de 2022 e de 11% ao fim de 2023.

Foto: Lucas Saporiti Fotografia

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