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Estagflação?

Estagflação é um dos piores cenários que pode existir em uma economia. Esse termo foi cunhado em 1965 por Ian Macleod para caracterizar a economia britânica naquele momento.É a situação em que uma economia está envolta a um processo inflacionário, a atividade econômica está desaquecida e há elevado índice de desemprego. Quando isso acontece, o trabalho do governo e dos bancos centrais ficam ainda mais difíceis, pois são essas instituições responsáveis por impulsionar a economia e preservar o poder de compra da população.

Para a população, a estagflação é percebida de duas maneiras. A primeira, obviamente, é a falta de empregos já que a economia fica estagnada. Os empresários, atentos ao ambiente econômico são levados a esperar por um melhor momento para investir. O segundo, é o impacto da alta dos preços no poder aquisitivo, sobretudo para a parcela da população que não consegue se proteger do processo inflacionário (leia-se investimentos no sistema financeiro). Com o aumento acelerado de preços, grande parte da população deixa de consumir outros produtos já que necessitam destinar uma parcela da renda aos gastos essenciais (alimentação e moradia). Assim, a inflação amplia as incertezas que se reflete na queda do consumo e na queda dos investimentos. O resultado se percebe na queda da atividade econômica fazendo aprofundar o nível de desemprego.

Alguns analistas de mercado têm destacado que o Brasil está atravessando um período de estagflação que teve origem na Pandemia de Covid-19. Outros acham cedo ou errôneo apontar que tal fenômeno acomete (ou acometerá) a economia brasileira. Eis, portanto, a pergunta que não quer calar: a economia brasileira está envolta a um processo de estagflação? Vejamos um pouco da história quando, de fato, presenciamos um período que registrou processo inflacionário e queda da atividade econômica. A partir disso, pode-se comparar se o mesmo vem ocorrendo atualmente.

Entre 1930 até o fim dos anos 1970, a política de desenvolvimento do País se deu a partir do Modelo de Substituição de Importações. Neste modelo, o Estado tomou para si a responsabilidade de desenvolver a economia. Como? Tomando recursos no exterior (sob taxas de juros flexíveis) e realizando investimentos em setores necessários para o fim de tornar o País industrializado.

Tudo ia bem até que em 1973 a OPEP (Organização dos Países exportadores do Petróleo) decidiu elevar o preço do barril do petróleo (fenômeno que se repetiria em 1979). O resultado foi uma alta de mais de 1.800% em doze anos: o petróleo, cotado internacionalmente, passou de US$ 1,7, em 1969; para US$ 35 em 1980).Em contrapartida, os EUA elevaram a taxa de juros (sob a qual a dívida externa brasileira era balizada). E esse conjunto de fatores surpreende as economias industrializadas, ou sem processo de industrialização, como o Brasil.

A partir de então, a dívida externa nacional ganhou proporções elevadas e, com a elevação dos preços do principal insumo para a indústria (o Brasil era um país predominantemente industrializado desde 1958) os preços ficaram pressionados.Ou seja, levamos uma dupla bangornada.

Mas eis que chegam os anos 1980. A partir de características próprias (leia-se inflação inercial)¹, nos anos 1980 e início dos anos 1990, sucedeu um período cuja economia brasileira conviveu com a hiperinflação e queda da atividade econômica (estagflação). A título de ilustração, entre 1988 e 1993, a média anual do Índice de Preços – Disponibilidade Interna (IGP-DI) ficou acima dos1.400%; enquanto a medida da taxa de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), entre 1980 e 1993, foi de 2,2%. Ademais, em alguns anos, o PIB registrou desempenho negativo (1981, 1983, 1988, 1990 e 1992).

Em suma, foi um período cujos produtos se valorizavam substancialmente ante a moeda nacional. As idas ao supermercado eram emblemáticas. Enquanto os brasileiros estavam escolhendo o produto na prateleira, um funcionário aparecia remarcando os preços antes mesmo da mercadoria ter sido pega. E mais do que isso, se essa mesma pessoa voltasse ao supermercado no outro dia, muito provavelmente os preços já seriam outros.O governo, claro, tentava contornar o processo inflacionário através de sucessivos planos econômicos. Porém a cada novo plano, um novo insucesso.

A superação do período de estagflação veio com o Plano Real, em 1994. A partir de então, os índices de preços caíram para patamares inimagináveis até então. Entre 1995 a 2019, a inflação anual média foi de 8,25%(gráfico 1). Ademais, a atividade econômica reagiu, fruto da menor incerteza na economia brasileira. Entre 1994 e 2008, a taxa média de crescimento do PIB foi de 3,4% (resultados negativos vieram a ser registradossomente em 2009 (crise do subprime), 2015 e 2016 (crise política interna)).

¹. Situação na qual as empresas corrigem os preços em tempos distintos dentro de um determinado período. Ao final da rodada de aumento de preços, dado que as empresas aumentam o preço além do que as outras empresas já haviam repassado, quando a rodada novamente se inicia, a primeira empresa já está com os preços defasados e, portanto, os corrige mais uma vez. Logo, é o processo em que a inflação se autoalimenta.

Gráfico 1 – IGP-M e IPCA entre 1995 e 2021. Fonte: IBGE (2022).

Entretanto, após um longo período de estabilidade, os índices de preços voltaram a registrar números acima dos dois dígitos.Com a Pandemia, em 2020, os índices de preços avançaram substancialmente devido, principalmente, a escassez de bens disponíveis. Em 2020 e em 2021, o IGP-M registrou alta de 23,13% e 17,78%, respectivamente. Quanto ao IPCA, esse registrou alta de 4,51% e 10,06%nos mesmos períodos.Paralelamente, entre 2020 e 2022, a taxa média de crescimento da economia ficouem 0,37% (gráfico 2).

Gráfico 2 – Variação do PIB entre 1995 e 2021. Fonte: IBGE (2022).

Quanto a taxa dedesemprego, essase manteve em elevado patamar (distante do verificado até 2015). As taxas de desemprego total no País (referente a todas as faixas etárias da população economicamente ativa), desde 2016 estão acima dos dois dígitos. A última aferição realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, referente ao primeiro trimestre de 2022, apontou que são11,9 milhões de brasileiros desempregados e outros 4,6 milhões de desalentados. Há quem justifique esses dados em função da pandemia. Contudo, contra fatos não há argumentos: a taxa de desemprego, que outrora já foi de 6,4% (2014), atualmente está acima dos dois dígitos (11,1%).

Sendo assim, voltemos a questão: estaria a economia brasileira passando por um período de estagflação? Pode-se dizer que sim. Há claros sinais de que os indicadores econômicos não andam bem. É o caso da inflação e do desemprego. Ambos são números que implicam em uma situação delicada. Ao passo que o desemprego se mantém elevado, os preços persistem em aumentar. E o desemprego elevado pressiona os salários ou, ao menos, não permitem que esses sejam corrigidos na mesma proporção dos preços. Não é à toa que o nível de renda do brasileiro está 8,1% menor do registrado no primeiro trimestre de 2021 e; míseros 1,5% maior em relação ao último trimestre de 2021. O resultado, obviamente,é a perda do poder de compra (já que os atuais índices de inflação estão acima dos dois dígitos), principalmente para a faixa mais de baixa renda.

Em compasso, a atividade da economia registrou alta 4,6%em 2021, o que não deixa de ser um resultado relevante. Acontece que esse dado também passa pela pandemia. Com a queda de -4,1% em 2020, houve amplo espaço para a retomada da atividade economia assim que a pandemia perdeu força. Ou seja, o resultado de 2021 compensou as perdas do ano anterior. Diante disso, o resultado de 2022 é determinante para apontar se o país, de fato, está (estará) em meio a um processo de estagflação. Um resultado negativo ou pouco expressivo da atividade econômica, em 2022,pode caracterizar, concretamente, estagflação no Brasil. E é justamente isso que o Boletim Focus do Banco Central tem apresentado. A expectativa do mercado é de crescimento de 0,7% em 2022 (e de 1% em 2023). Ou seja, a média de crescimento do PIB, entre 2020 e 2022 – a se confirmar a expectativa do mercado – será de 0,4%.Conclui-se, portanto, que estamos em meio a um processo inflacionário que tende a se manter mesmo com uma política austera por parte da autoridade monetária (elevação da taxa básica de juros visando trazer a inflação para dentro da meta estabelecida). Há, em paralelo, elevado índice de desemprego e a atividade da economia gera resultados inexpressivos. Ou seja, estagflação! Quando sairemos dela? Só o tempo dirá.

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